Bancários definem resoluções em defesa da soberania nacional, da democracia e da categoria bancária

Ao final da 27ª Conferência Nacional das Bancárias e Bancários, os 629 delegados (366 homens e 263 mulheres) da categoria aprovaram as resoluções com uma ampla agenda de reivindicações e propostas, com foco em questões econômicas, sociais e políticas.
As resoluções destacam a defesa da democracia, a soberania nacional e a reeleição do Presidente Lula, posicionando-se contra o fascismo, as privatizações e a interferência externa, com adesão às manifestações de 7 de Setembro, organizados pelas centrais sindicais e movimentos sociais.
Ainda foi dada uma ênfase significativa à justiça tributária, propondo a taxação de grandes fortunas e a isenção de IR para rendas mais baixas, além da regulação das redes sociais para combater a desinformação. Os textos também abordam a defesa das empresas estatais e dos bancos públicos como propulsores de políticas de desenvolvimento do país, com a concessão de crédito para a classe trabalhadora, a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1. Também foi proposta a revisão do sistema financeiro nacional para combater juros abusivos, a atuação das fintechs e o fortalecimento da formação da classe trabalhadora, a modernização da comunicação e a mobilização sindical para enfrentar os desafios contemporâneos e promover a inclusão.
Resoluções
Foram aprovadas 14 resoluções:
- Realizar ato nacional no dia 27 de agosto, em defesa do Banco do Brasil;
- Reeleger o presidente Lula e apoiar candidaturas ligadas à classe trabalhadora;
- Resolução sobre a regulação, com estatização do Sistema Financeiro Nacional;
- Defesa dos Bancos e Empresas Públicas e a Importância dos Serviços Públicos;
- Saúde e Condições de Trabalho;
- Defesa da Soberania, da Democracia e do PIX;
- Justiça Tributária Já! Que os super ricos paguem mais, para que o povo pague menos;
- Regulação das redes sociais: uma urgência democrática!;
- Redução da Jornada e Fim da Escala 6x1;
- Resolução contra o fechamento de agências bancárias e em defesa do emprego bancário;
- Regulação do Sistema Financeiro Nacional;
- Formação da Classe Trabalhadora;
- Comunicação Popular na Era das Redes Sociais;
- Novas Formas de Mobilização.
Moções
Além das resoluções, foram aprovadas quatro moções:
- De repúdio às práticas de contratação fraudulenta adotadas pelo banco Santander;
- De apoio ao Supremo Tribunal Federal e em defesa da soberania nacional;
- Contrária à pauta de anistia geral e irrestrita aos participantes da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023;
- Pelo fim do genocídio do povo palestino.
Pautas específicas
As pautas específicas da categoria bancária receberam destaque especial. “A mobilização da classe trabalhadora é crucial para barrar a defesa do emprego bancário, e principalmente garantir condições de saúde e trabalho nas agências e departamentos bancários e a valorização da categoria”, explicou a presidenta da Contraf-CUT e coordenadora do Comando Nacional, Juvandia Moreira.
Consulta Nacional
O levantamento de dados da Consulta Campanha Nacional da Categoria Bancária 2025 ocorreu entre 15 de maio e 11 de julho de 2025 e obteve 33.482 respostas em âmbito nacional com trabalhadores de todos os bancos com atuação no país.
Os resultados do levantamento revelaram que a categoria se importa com o emprego de qualidade e rechaça a pejotização.
Na pergunta "Pensando no futuro de sua carreira profissional, o que você prefere?", 67,3% escolheram as alternativas “ter um emprego com carteira assinada em um banco privado” ou “ter carteira assinada em um banco público”.
Outros 21% escolheram opção “aprovação em concurso público em outro setor”. Enquanto somente 9,2% desejariam abrir própria empresa ou trabalhar de modo autônomo, como PJ no ramo financeiro.
“Se considerarmos, juntas, as alternativas emprego com carteira assinada o resultado é que 88,3% da categoria preza pela segurança dos direitos trabalhistas”, destacou Juvandia.
Na questão sobre qual a melhor maneira de os bancos repartirem seus ganhos provenientes da inovação tecnológica com os trabalhadores, com possibilidade de escolherem até duas alternativas, as respostas foram:
- 79% respondeu "aumento de remuneração fixa"
- 32%, "aumento de remuneração variável"
- 29%, "garantia de emprego"
- 20%, "redução da jornada de trabalho”
- 8%, "oferecimento de cursos de capacitação em TI”
Ao serem questionados se o ambiente de trabalho nos bancos traz impactos negativos para a saúde mental da categoria bancária, 85% afirmaram que sim, contra 7% que não. Não souberam responder 8%.
A Consulta Nacional 2025 também trouxe perguntas relacionadas às políticas sociais, com impactos econômicos para a vida dos trabalhadores bancários.
Na questão "Pensando na realidade financeira de sua família, quais itens têm maior peso no orçamento doméstico", podendo responder até três opções, o resultado foi:
- 75%: preço dos alimentos no domicílio
- 40%: custos com saúde
- 35%: custo das cotas de consumo
- 34%: custo com moradia
- 28%: preço dos alimentos fora do domicílio
- 24%: custos relacionados à mobilidade
O importante debate em torno do projeto de lei (PL) de isenção do Imposto de Renda (IR), para quem ganha até R$ 5 mil/mês e descontos para quem ganha até R$ 7mil/mês, também foi colocado em pauta. Para 67% a proposta é "muito importante" e para 23% "importante". Somente 6% consideraram "pouco importante" e 4% "nada importante".
Foi perguntado ainda se concordavam com a cobrança de uma alíquota mínima de 10% de IR para a população de alta renda, medida que também está prevista no projeto de lei citado acima. As respostas foram:
- 75%: concordam
- 14%: discordam
- 11%: não souberam responder
A Consulta Nacional sondou a respeito da ampliação da isenção na PLR. A pergunta, foi formulada da seguinte maneira: Fruto da luta do movimento sindical o IR na PLR tem faixa de isenção que atualmente está em R$ 7.640,80 ao ano. Por outro lado, os dividendos recebidos por acionistas de empresas são isentos. Como forma de aumentar a justiça tributária no país, qual a importância de elevar a isenção do IR na PLR?
As respostas foram:
- "Muito importante" para 81%
- "Importante" para 14%
- "Pouco importante" para 3%
- "Nada importante" para 2%
Com relação à percepção da desigualdade salarial entre homens e mulheres:
- 35% indicam que há desigualdade, mas o banco tem adotado ações para melhorar.
- 17% afirmam que há desigualdade e o banco não tem adotado nenhuma ação.
- 48% acreditam que não há desigualdade salarial.
“Por isso é tão importante a Lei da Igualdade Salarial entre Homens e Mulheres sancionada pelo presidente Lula. Depois da Lei, o Itaú teve que fazer um reajuste salarial para 3 mil funcionárias para se adequar à lei”, disse a presidenta da Contraf-CUT.
Inteligência Artificial: impactos, riscos e a defesa dos direitos sociais
O debate sobre “Inteligência Artificial: impactos e regulação”, ocorrida neste sábado (23), trouxe ao centro do debate um dos temas mais urgentes da atualidade: os impactos da inteligência artificial (IA) no mundo do trabalho e a necessidade de regulação para garantir a proteção de direitos. Com a presença de dirigentes sindicais e do assessor da Secretaria de Políticas Digitais da Presidência da República, Lucas Leffa, a discussão destacou que a tecnologia, embora inevitável, não é neutra e precisa ser disputada sob a perspectiva da democracia e da valorização do trabalho humano.
Lucas Leffa, apresentou dados alarmantes sobre o cenário digital no Brasil. Segundo ele, o país registrou R$ 10,1 bilhões em prejuízos com fraudes em 2024, com 11,5 milhões de registros de fraude apenas no último ano. “Temos mais de oito mil tentativas de golpe por hora. Desde que comecei a falar aqui, já foram centenas de novas tentativas”, destacou.
Leffa explicou que 21% dos golpes em 2024 já utilizaram recursos de inteligência artificial, como imagens e vozes falsas em deepfakes ou sites fraudulentos imitando o governo. Para ele, esse cenário evidencia a urgência de regras claras para plataformas digitais e sistemas algorítmicos. “Não existe neutralidade na inteligência artificial. Ela carrega preconceitos de gênero, de idade, de classe. É por isso que precisamos de regulação, para proteger a sociedade e os trabalhadores”, afirmou.
No setor bancário, os dados também preocupam. Só em 2024, foram eliminados 6.198 postos de trabalho, em contradição com o crescimento de 16,3% do mercado de trabalho nacional no mesmo período. Em contrapartida, os quatro maiores bancos registraram lucro recorde de R$ 108,2 bilhões, um aumento de 18,6% em relação a 2023. “Isso mostra que a tecnologia está sendo usada para ampliar lucros às custas de empregos, e não para gerar riqueza compartilhada”, alertou Leffa.
O assessor da Presidência também apresentou o histórico legislativo da regulação da IA no Brasil, que vem avançando desde 2021 e atualmente está em debate na Câmara dos Deputados. O governo defende que a versão aprovada no Senado sirva de base para aprimoramentos, com uma estrutura regulatória baseada em níveis de risco e direitos fundamentais garantidos. Entre eles, o direito à informação, à privacidade, à revisão humana de decisões automatizadas e à não discriminação.
Leffa destacou ainda a importância de reinserir no texto legal dispositivos específicos de proteção ao trabalho. “Precisamos garantir que a inteligência artificial seja reconhecida como de alto risco quando utilizada em recrutamento, avaliação de desempenho ou decisões sobre contratos de trabalho. É fundamental preservar a negociação coletiva e impedir demissões em massa sem diálogo”, defendeu.
Como novas tecnologias impactam na movimentação de empregos do ramo financeiro
Na mesa "Novas Tecnologias, reestruturação e transformação do emprego no ramo financeiro", realizada também neste sábado (23), as economistas Vivian Machado e Rosângela Vieira, do Dieese, trouxeram dados para ajudar o movimento sindical no debate sobre proteção dos direitos trabalhistas conquistados pela categoria.
"O Sistema Financeiro Nacional (SFN) passa por uma reestruturação provocada não apenas pelas inovações tecnológicas, mas também pela desregulamentação na legislação trabalhista, alterações na regulamentação determinada pelo Banco Central e a entrada de novos agentes", destacou Vivian.
Sobre os impactos tecnológicos, a economista observou que, enquanto no mundo o orçamento em tecnologia dos bancos cresceu 35%, entre 2018 e 2023, no Brasil esse crescimento foi de 97%. "E, para 2025, os bancos devem investir perto de R$ 50 bilhões em tecnologia", completou.
O resultado disso é a forte mudança na forma como as transações financeiras acontecem hoje. Dados mais recentes, da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), mostram que, em 2024, 75% das transações estavam sendo feitas pelo celular (mobile banking).
Vivian também apontou que os bancos têm usado intensamente a automação nos processos. "Mais de oito em cada dez bancos já incorporam IA generativa (GenAI) nas operações", continuou. "E essa intensificação no uso das novas tecnologias está gerando ganhos de eficiência mensuráveis. O levantamento da Febraban aponta que os bancos registraram taxa de eficiência superior a 20% após a implementação da IA e da IA generativa", completou.
Por outro lado, os avanços tecnológicos também aumentam os riscos sobre o SFN. "Tivemos casos emblemáticos e muito recentes nesse sentido, como o desvio de R$ 800 milhões, por hackers, após invadirem empresa que conectava instituições ao PIX. Esse cenário está, inclusive, aumentando a relevância da cibersegurança para o setor", destacou.
Emprego bancário
Diante de todas essas transformações, os lucros dos bancos do país continuam em expansão. "Aliás, o crescimento foi substancial: em doze meses, os cinco maiores bancos aumentaram seus lucros em R$ 126,7 bilhões, alta média de 18%", pontuou Vivian Machado.
Por outro lado, desde 2016 o setor bancário fechou 6.700 agências (com redução de 30%). Esse movimento foi contrário ao das cooperativas de crédito, que abriram 4.785 postos de atendimento (alta de 102% no período) e dos Correspondentes Bancários (Cobans), que possuem cerca de 240 mil postos de atendimento, 14 vezes mais do que as agências bancárias atualmente.
"O que nos chama a atenção é que a maioria esmagadora dos 20 maiores contratantes dos Cobans são bancos. Ou seja, os bancos poderiam prestar esses serviços, mas estão encolhendo suas estruturas, terceirizando", ressaltou a economista do Dieese.
“O ramo financeiro formalmente emprega cerca de 1 milhão de trabalhadores, mas a categoria bancária, que já foi majoritária, hoje representa apenas 424 mil. Em 2015, os bancários eram 59% desse universo; em 2024, são 42%”, destacou Rosângela, mostrando que a redução da presença tradicional dos bancários é significativa.
Como forma de assegurar o emprego bancário, diante das mudanças tecnológicas no SFN, Vivian ressaltou as conquistas do movimento sindical bancário, nas última Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), incluindo mesa permanente de negociações sobre os impactos da IA nos empregos e o compromisso dos bancos de investirem na requalificação voltada às novas tecnologias.
Rosângela lembrou ainda que o Marco Regulatório da IA (PL 2.338/2023) prevê diretrizes importantes para proteger os trabalhadores, incluindo a necessidade de negociação coletiva antes de demissões em massa, avaliação de impacto algorítmico e supervisão humana em decisões automatizadas.
Para ela, a vigilância da categoria é essencial. “Estamos falando de um processo multifacetado, que envolve tecnologia, regulação, economia e política. Nossa tarefa é lutar para que os empregos bancários sejam preservados, para que os direitos não sejam destruídos e para que a sociedade não pague a conta da precarização”, concluiu Rosângela Vieira.
Revisão do sistema financeiro nacional precisa ser feita com urgência
A necessidade de repensar o modelo do Sistema Financeiro Nacional (SFN) foi o foco do debate da mesa "Por um sistema financeiro a serviço do desenvolvimento", apresentada pelo doutor em economia pela Unicamp e técnico do Dieese, Gustavo Cavarzan, e pelo doutor em Política Internacional e professor da FespSP, Moisés Marques.
"Por trás de uma meta de inflação que hoje é praticamente inalcançável para um país como o nosso; de uma taxa básica de juros (Selic) que coloca o Brasil como líder de ranking mundial com a maior taxa de juros reais; e do alto nível de endividamento das famílias brasileiras com os bancos, está o modelo de regulação atual do Sistema Financeiro Nacional (SFN), que precisa ser revisado. E, essa revisão, inclui debates sobre a forma como entidades que fazem parte do SFN, notadamente o Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Banco Central, vem atuando", destacou Cavarzan.
O CMN é, no país, o órgão responsável por definir a meta de inflação. O Banco Central, por sua vez, é responsável por conduzir a política monetária para o cumprimento da meta de inflação determinada pelo CMN. "Há duas décadas, a meta de inflação vem sendo reduzida, de modo a entrar em patamar praticamente inatingível. Em 1999, era de 8%. Hoje, 2025, está em 3%, com intervalo de 1,5%, ou seja, pode chegar a 4,5%. Mas se observarmos os últimos 27 anos de regime de metas, em apenas seis anos o IPCA (principal índice que mede inflação no país) foi menor que 4,5%. E, em apenas uma ocasião, foi menor que 3%", completou o economista.
Ele destacou também que a inflação média do atual governo Lula está entre as menores desde 1999. "Então, essa meta imposta hoje pelo CMN, de 3%, cria a impressão de inflação descontrolada, e dá argumentos para que o Banco Central siga aumentando a Selic", arrematou.
Atualmente, a Selic está em 15%, o patamar mais elevado dos últimos 19 anos (desde julho de 2006). E os impactos da taxa de juros elevadíssima afetam negativamente o desenvolvimento econômico, porque, além de colaborarem para aumentar o endividamento da população, desestimulam o investimento das empresas e aumentam os gastos do governo com o pagamento de juros da dívida pública. “Nos últimos 12 meses, os juros nominais pagos pela União aos detentores de dívidas públicas alcançaram R$ 912 bilhões, o mesmo que 7,45% do PIB”, pontuou o economista do Dieese.
A Selic elevada beneficia somente um grupo muito restrito e que é responsável por influenciar a política monetária do Banco Central. E isso fica claro a partir de uma análise do CORECON (Conselho Regional de Economia) de São Paulo, em um artigo que Cavarzan trouxe para o debate. “O FOCUS (boletim do Banco Central, feito com base em análises 100% do mercado) "carrega o viés de interesse dos respondentes, que objetivam maximizar seus retornos, como por meio de aplicações com taxa de juros altas e baixo risco". Atualmente, os bancos detêm, diretamente, mais de 30% da dívida pública brasileira (remuneradas com base na Selic) e, os fundos de investimentos, outros 22%.
Moisés Marques também destacou que o debate sobre regulação do STF transborda para a questão da soberania nacional e necessidade de regulação das big techs e da inteligência artificial (IA). "Após o anúncio da imposição da Lei Magnistsky, pelo presidente dos EUA, Donald Trump, ao ministro Alexandre de Moraes, os bancos brasileiros perderam quase R$ 42 bilhões em valor de mercado. Então, o que é a soberania nacional, neste momento, com a questão da Lei Magnistsky? Vale uma regra do Tesouro americano no Brasil? Valor de mercado e eventuais congelamentos de recursos devem ser parâmetros? São questões que temos que lidar hoje", completou.
Nesse sentido, o professor acredita que é preciso que os movimentos sociais, como o sindical bancário, atuem ativamente no debate para um sistema financeiro que apoie o desenvolvimento do país. "Tomando emprestado o que o Senador Cid Gomes disse, ao propor o Projeto de Lei 144/2025, no debate sobre a reforma do SFN, o que está em jogo não é apenas o futuro do Banco Central, mas a integridade da democracia econômica brasileira. A autonomia do Banco Central precisa ser a autonomia da República e não das finanças", pontuou.
Marinho pede organização para mudar o Congresso
Luiz Marinho, ministro do Trabalho e Emprego do Governo Lula, iniciou sua fala parabenizando o movimento sindical bancário pelo exemplo de organização. “Vocês foram construindo, ao longo das décadas, um sistema de representação e negociação muito completo. Há muitas categorias igualmente organizadas, mas nenhuma de forma nacional. Vocês souberam aproveitar esse processo, e é isso que nós esperamos que os trabalhadores façam: se organizem nacionalmente e internacionalmente”, saudou.
Após o reconhecimento à categoria bancária, Marinho afirmou que o momento atual é complexo, resultado dos retrocessos após o golpe contra a presidenta Dilma. “Retrocessos que incluíram a descontinuidade de muitas políticas públicas e o enfraquecimento do movimento sindical brasileiro. Apesar da resistência liderada por Lula e de sua eleição em 2022, nossos desafios não terminaram”, afirmou. “Nossa resistência é mais necessária do que nunca agora, para dar continuidade à defesa da nossa soberania, da nossa democracia e do sonho do povo brasileiro”, acrescentou.
O ministro também abordou os impactos do tarifaço imposto por Trump na economia brasileira, ressaltando que o Governo Lula tem atuado para solucionar os problemas da produção nacional e colocar crédito à disposição das empresas, de modo a garantir empregos e abrir novos mercados. “O Brasil já foi 25% dependente do mercado norte-americano. Hoje, a dependência é de 12%. O que aconteceu é que nós abrimos muitos outros mercados. Nesses dois anos e sete meses de governo, abrimos 400 novos mercados”, informou.
Marinho falou ainda sobre o mercado de trabalho brasileiro, sublinhando a necessidade de o movimento sindical estar preparado para debater os impactos da pejotização. “A pejotização é mais grave que a terceirização, porque ela pode destruir a Previdência Social e o Fundo de Garantia (FGTS). E o FGTS é o responsável por financiar políticas públicas importantes, como o Minha Casa, Minha Vida, e também investimentos em projetos de desenvolvimento do país. Com a pejotização, não haverá recursos para o BNDES trabalhar, da mesma forma que para o Sistema S”, alertou.
“Diante de tudo isso, o nosso desafio é olhar para essa conjuntura e saber que os nossos resultados passam pelas urnas. Conduzir Lula à presidência não foi suficiente diante da armadilha que temos no Congresso Nacional, que sequestrou e se apropriou de mais de 50% do orçamento brasileiro. Por isso, precisamos estar comprometidos com a mudança na Câmara e no Senado na próxima eleição. Pois vencer a disputa no Congresso Nacional significa dar condições de Lula fazer o melhor governo da história”, avaliou Marinho.
“Trago esses temas para dizer: vamos acreditar no Brasil, vamos defender nossa soberania e fortalecer a nossa democracia. Vamos fazer o debate político, pois é por essa via que podemos transformar o nosso município, nosso estado e o nosso país”, finalizou.
Manutenção da democracia brasileira passa pela eleição de senadores progressistas em 2026
O historiador e professor de Literatura Comparada, João Cezar de Castro Rocha, debateu os rumos da democracia e da soberania brasileira.
Antes de tratar da conjuntura atual, o professor fez um resgate da formação histórica do País. Para ele, a democracia brasileira sempre conviveu com contradições profundas, pois o Estado foi moldado para preservar privilégios. “Todo o Estado brasileiro foi montado como uma máquina de permanência de privilégios. Não é apenas a estrutura tributária regressiva, mas também o sistema judicial e o modelo de inflação que multiplica recursos para os mais ricos e nega acesso real à justiça para os pobres”, afirmou.
Nesse cenário, apenas uma instituição nasceu com a missão de proteger os trabalhadores: a Justiça do Trabalho e a consequente organização sindical. “É a única instância que foi criada em defesa do trabalhador e, por isso, mesmo vem sendo desmontada, tijolo a tijolo, desde o golpe de 2016”, destacou. “Desde as reformas do Michel Temer, tudo é feito para que os sindicatos sejam cada vez menos importantes e representativos.”, lembrou.
Ao utilizar como exemplo os personagens vilões de Shakespeare – Iago (Otelo) e Ricardo III – Rocha mostrou como a extrema direita deixou de utilizar ações dos vilões clássicos e absolutos, para se inspirar no “vilão ostentação”, que tem como principal estratégia a construção de narrativas marcadas pela retórica do ódio e pela criação de inimigos imaginários. “Com isso, o nosso maior desafio é enfrentar a normalização do absurdo. É aceitar como natural o que deveria ser considerado inaceitável. Essa guerra cultural é a força da extrema direita atual!”, alertou.
Segundo ele, essa capacidade de transformar a exceção em rotina alimenta a “cultura do ódio” e conquista corações e mentes, sobretudo das novas gerações, por meio das redes sociais e das fake news. “Nunca na nossa história houve a normalização do absurdo como ocorre hoje. E a extrema direita depende dessa normalização”, acrescentou.
Ainda nas palavras do professor, a extrema direita transnacional sabe que o Brasil é um país com enorme potencial – é a oitava maior economia do mundo e um dos cinco maiores países em população e dimensão geográfica – e, por isso, tem um plano: “mantê-lo apenas como um país bem-sucedido, mas nunca permitir que se torne, de fato, uma nação soberana, fraterna e solidária”, apontou. E, para isso, a extrema direita tem um plano, um roteiro já utilizado em outros países para chegar e se manter no poder.
“Esse plano é conquistar o Senado. Porque a extrema direita só se manteve no poder em países em que ela subjugou a Suprema Corte. É somente intervindo no Judiciário que será possível fazer impeachment de ministros como Alexandre de Moraes e Flávio Dino. Ou seja, se eles conquistarem maioria no Senado, a ditadura principia”, explicou. Ele também mencionou o papel de potências estrangeiras em diversas tentativas de golpe. “Por isso, o desafio é compreender que nossa luta pela democracia é também luta pela soberania”, destacou.
Diante dessa conjuntura, o historiador ressaltou a necessidade de atenção à eleição de senadores em 2026. “Precisamos concentrar nossas energias no Senado, para que tenhamos candidatos competitivos e que sejam eleitos em todos os estados. Não basta reeleger Lula! Se perdemos o Senado, não teremos uma nação”, orientou. “Pois é preciso lembrar que a extrema direita não tem projeto de nação, só tem retórica do ódio. E isso não paga aluguel, não põe comida no prato”, acrescentou.
Por fim, Rocha concluiu que é preciso aprofundar a democracia brasileira para além da formalidade. “A democracia formal é muito importante, mas nós temos que defender que um outro tipo de democracia é preciso: a democracia enquanto acesso a direitos. E esse tipo o povo brasileiro nunca experimentou de fato”, disse. “No dia em que o povo brasileiro souber que a democracia é também o acesso fundamental a um conjunto indispensável de direitos, a extrema direita será apenas uma memória triste do passado”, encerrou.