Encontro Nacional de Saúde debate adoecimento da categoria e prepara pauta para a Campanha Nacional 2026
Dirigentes sindicais de todo o país discutiram estratégias para enfrentar o avanço dos transtornos mentais, dos riscos psicossociais e das novas formas de pressão no trabalho bancário
O Encontro Nacional de Saúde do(a) Trabalhador(a) Bancário(a), realizado na sede da Contraf-CUT, entre quarta e quinta-feira (22 e 23), reuniu dirigentes sindicais de diversas regiões do país para debater o cenário de adoecimento da categoria e construir propostas que irão subsidiar a Campanha Nacional dos Bancários de 2026.
O objetivo foi organizar a luta por melhores condições de trabalho que preservem a saúde dos trabalhadores do sistema financeiro, com atualização da pauta de reivindicações diante das transformações recentes no setor.
Entre os principais temas debatidos estiveram os riscos psicossociais relacionados ao trabalho, o crescimento do adoecimento psíquico e o avanço do assédio moral organizacional, com destaque para o assédio algorítmico e a vigilância digital utilizados para intensificar o controle e a cobrança por resultados.
Os participantes apontaram que a gestão por estresse, associada a sistemas de avaliação de desempenho, remuneração variável e uso intensivo de tecnologias de monitoramento, tem ampliado o sofrimento psíquico, o esgotamento e o afastamento de trabalhadores.
O encontro também destacou a falta de políticas reais de prevenção por parte dos bancos. De acordo com os dirigentes, os serviços médicos das instituições seguem subordinados à lógica da produtividade, enquanto trabalhadores adoecidos enfrentam dificuldades para acessar tratamento, reconhecimento do nexo ocupacional e benefícios previdenciários junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
As discussões do Encontro Nacional de Saúde servirão como base para as conferências regionais e estaduais e para a construção final da pauta nacional de reivindicações dos trabalhadores do ramo financeiro.
Contraf-CUT lança cartilha sobre riscos psicossociais e reforça debate sobre saúde mental no trabalho bancário
O segundo dia foi marcado pelo lançamento da cartilha “Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho no Setor Financeiro — Identificação, Intervenção e Monitoramento”.
Elaborada pela professora Cristiane Queiroz, especialista em ergonomia e sistemas de produção, a publicação aborda as mudanças previstas nas normas de segurança e saúde do trabalho que tornam obrigatória, a partir de 2026, a gestão dos riscos psicossociais pelas empresas brasileiras dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), conforme a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1).
O material parte do reconhecimento de que as transformações recentes no mundo do trabalho — impulsionadas pela digitalização, automação e pressão permanente por resultados — ampliaram fatores de adoecimento mental entre trabalhadores e trabalhadoras.
O que são riscos psicossociais
Diferentemente dos riscos físicos ou químicos, que possuem limites mensuráveis, os riscos psicossociais estão ligados à forma como o trabalho é organizado e gerido. Eles envolvem aspectos como:
- Conteúdo das tarefas;
- Demandas emocionais;
- Modelo de gestão;
- Relações interpessoais no ambiente laboral;
- Pressão por desempenho e metas.
Quando esses fatores atuam de forma contínua e acumulativa, podem gerar sofrimento psíquico e doenças relacionadas ao trabalho.
Entre as consequências estão ansiedade, depressão, doenças cardiovasculares, problemas osteomusculares e a Síndrome de Burnout — reconhecida em 2019 pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional.
Setor financeiro em alerta
A cartilha destaca que o setor financeiro está entre os mais impactados pelos riscos psicossociais. Entre os principais fatores apontados estão:
- Gestão por metas e desempenho, muitas vezes acompanhadas por monitoramento em tempo real;
- Vigilância digital, com uso de softwares de produtividade, rastreamento de atividades e geolocalização;
- Sobrecarga e intensificação do trabalho, ampliadas pela conectividade permanente do ambiente digital.
Segundo o secretário de Saúde da Contraf-CUT, Mauro Salles, o debate representa um avanço importante na defesa da saúde da categoria. “A saúde mental deixou de ser um tema secundário. A partir de 2026, as empresas terão responsabilidade legal sobre os riscos psicossociais. Isso significa reconhecer que o adoecimento não é individual, mas consequência da forma como o trabalho é organizado, especialmente no setor bancário, marcado por metas abusivas, controle permanente e intensificação do ritmo laboral”, afirmou.
Ele lembra também que as empresas sempre tiveram responsabilidades de avaliar todos os riscos, mesmo os psicossociais relacionados ao trabalho, conforme a NR 17. "Agora, isto fica mais ressaltado e, diante do elevado número de adoecimento psíquico, torna-se mais relevante e explícito na nova NR1."
Prevenção vai além de benefícios corporativos
Um dos pontos centrais da cartilha é a diferenciação entre ações de bem-estar e prevenção real dos riscos ocupacionais.
Medidas como salas de descompressão, programas de qualidade de vida ou palestras motivacionais são consideradas positivas, mas não configuram prevenção efetiva dos riscos psicossociais, pois não enfrentam as causas estruturais do adoecimento.
A publicação defende que a prevenção passa por mudanças na organização do trabalho, incluindo:
- Revisão dos modelos de gestão;
- Participação ativa dos trabalhadores nas decisões;
- Transparência nos sistemas de avaliação de desempenho, inclusive aqueles baseados em inteligência artificial.
Como avaliar os riscos
Para uma gestão eficaz, especialistas apontam a necessidade da chamada triangulação de evidências, que reúne três frentes de análise:
- Indicadores epidemiológicos e organizacionais, como absenteísmo e rotatividade;
- Estudo das atividades reais de trabalho;
- Comparação com indicadores epidemiológicos do setor econômico.
A proposta é ampliar a compreensão sobre a relação entre indivíduo, organização e ambiente laboral, buscando preservar a dignidade dos trabalhadores e a sustentabilidade das instituições.
Lançamento de livro sobre burnout
Ainda no segundo dia do encontro, aconteceu o lançamento do livro “Burnout: Conflitos de Valores Éticos e Alterações de Identidade”, do psicólogo e especialista Rui Carlos Stockinger.
Além do lançamento da obra, o autor ministrou palestra sobre o crescimento da síndrome de Burnout, considerada uma epidemia silenciosa que atinge milhares de trabalhadores e trabalhadoras, incluindo bancários e bancárias. Psicoterapeuta e pesquisador do tema, Stockinger apresentou reflexões sobre as transformações no mundo do trabalho e os impactos na saúde mental.
Burnout avança entre trabalhadores
A síndrome de burnout, também conhecida como esgotamento profissional, caracteriza-se por desmotivação, queda de produtividade e sentimentos persistentes de ineficácia. Entre os principais sinais estão alterações de identidade, sensação de vazio interno, confusão emocional, distanciamento entre identidade pessoal e profissional e perda de espontaneidade e autoestima no cotidiano.
Dados apresentados durante o encontro apontam a dimensão do problema no país. Estimativas oficiais indicam que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros são afetados por transtornos relacionados ao esgotamento profissional. Outras pesquisas sugerem que o número pode chegar a 33 milhões de pessoas.
Em 2024, mais de 470 mil brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, o maior registro já contabilizado. Os casos diagnosticados de burnout no Brasil foram, no ano retrasado, seis vezes superiores aos registrados em 2021, enquanto os afastamentos concedidos pelo INSS cresceram quase 1000% na última década.
O livro apresentado no encontro traz resultados de pesquisa realizada com bancários e bancárias, apontando um nível de prevalência de burnout de 84% entre os participantes, índice considerado o mais elevado já identificado em estudos desse tipo na categoria.
Saúde mental como pauta permanente
Para o secretário de Saúde da Contraf-CUT, Mauro Salles, o encontro reforça a necessidade de tratar a saúde mental como prioridade nas negociações e na organização do trabalho no setor financeiro.
“O crescimento dos casos de adoecimento mental mostra que estamos diante de um problema estrutural. O burnout não é uma fragilidade individual, mas resultado das condições de trabalho, da pressão por metas e da intensificação do ritmo laboral. Discutir saúde mental é defender a vida, a dignidade e condições de trabalho saudáveis para bancários e bancárias”, afirmou.
Segundo ele, o debate promovido pelo encontro contribui para ampliar a conscientização da categoria e fortalecer a atuação sindical na prevenção do adoecimento.