Galípolo critica juros do rotativo e defende crédito mais acessível à população
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quinta-feira (26) que as taxas de juros do rotativo do cartão de crédito no Brasil são excessivamente elevadas e têm caráter punitivo, defendendo a necessidade de mudanças estruturais no sistema de crédito.
Segundo ele, a forma como o crédito emergencial é ofertado atualmente impõe custos elevados à população, especialmente aos consumidores que utilizam o rotativo como complemento de renda. “Uma grande maioria está pagando taxa acima de 100% [ao ano] nas linhas de crédito emergencial, o que envolve uma discussão mais de ordem estrutural desse arranjo”, afirmou.
Galípolo destacou que é fundamental avançar na construção de alternativas mais equilibradas. “É preciso produzir arranjos mais saudáveis para quem está tomando crédito”, disse.
O dirigente chamou atenção para a ampla utilização do cartão de crédito no país. Atualmente, cerca de 101 milhões de brasileiros utilizam essa modalidade, que passou por expansão significativa desde a pandemia de Covid-19, iniciada em 2020. O crescimento do uso do crédito tem sido acompanhado por aumento no endividamento e no comprometimento da renda das famílias.
No caso do rotativo do cartão de crédito, os números revelam um cenário crítico. Em janeiro, a taxa média anual chegou a 424,5%, com cerca de 40 milhões de usuários e índice de inadimplência de 63,5%. A modalidade é acionada quando o consumidor não paga integralmente a fatura e é considerada a mais cara do mercado.
Galípolo observou que muitos consumidores utilizam esse tipo de crédito de forma recorrente, o que agrava o quadro de endividamento. “As pessoas tomam, sim, crédito emergencial como renda disponível, é o crédito mais caro que deveria ser utilizado só em condições emergenciais”, disse.
Ele defendeu a busca por um modelo que reduza o risco para as instituições financeiras e, ao mesmo tempo, amplie o acesso da população a linhas de crédito mais adequadas. “Ou seja, que não esteja usando o rotativo de maneira permanente como um pedaço da renda disponível, porque é uma taxa de juros bastante punitiva”, acrescentou.
O cenário de endividamento elevado também é acompanhado com atenção pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que avalia medidas para reduzir o custo do crédito rotativo. A equipe econômica trabalha na elaboração de propostas com esse objetivo.
Além disso, Galípolo destacou que o aumento do nível de preços tem pressionado o orçamento das famílias. Ele citou impactos decorrentes de eventos recentes na economia global, como a pandemia, a guerra na Ucrânia, tensões no Oriente Médio e medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos.