Itaú: Bancários cobram avanços em teletrabalho, monitoramento digital e condições de trabalho

Publicado em: 29/10/2026
Itaú: Bancários cobram avanços em teletrabalho, monitoramento digital e condições de trabalho

A Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Itaú Unibanco participou de mais duas rodadas de negociação com o banco, nos dias 27 e 28 de outubro, na sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), em São Paulo, para discutir a renovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT). Entre os principais temas debatidos estiveram teletrabalho, ponto eletrônico, banco de horas, auxílio-educação, condições de trabalho, monitoramento digital, saúde dos funcionários e transição das certificações profissionais da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). As informações foram divulgadas pelo site da Contraf-CUT.

Para a coordenadora da COE, Valeska Pincovai, a renovação do acordo precisa assegurar direitos, ampliando a transparência nas relações de trabalho. “As negociações têm que garantir que os avanços das novas tecnologias não se transformem em instrumento de vigilância permanente e pressão sobre os trabalhadores. O banco tem a obrigação de dar transparência às ferramentas que utiliza, respeitando a jornada contratada e assegurandso o direito à desconexão”, afirmou.

A também coordenadora da COE e dirigente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, Maria Izabel Menezes, destacou que a defesa dos direitos dos trabalhadores passa também pela valorização profissional e pela proteção à saúde dos funcionários. “Não podemos discutir um acordo dessa importância sem tratar das condições reais de trabalho, das metas e do adoecimento. Queremos compromissos claros, que garantam que ninguém seja prejudicado por um afastamento e que a gestão do banco respeite os limites e os direitos dos trabalhadores”, destacou.

Ponto eletrônico e direito à desconexão

Os representantes dos trabalhadores defenderam a manutenção do ponto eletrônico como instrumento fundamental para assegurar o registro correto da jornada de trabalho e o pagamento das horas efetivamente trabalhadas.

A COE destacou que o mecanismo também contribui para o cumprimento dos limites da jornada e para a garantia do direito à desconexão. A cláusula de quitação do registro de ponto será mantida integralmente na renovação do ACT. As entidades sindicais orientam os bancários a acompanhar atentamente seus registros e, caso identifiquem divergências, procurar o Sindicato para receber orientação.

Ajuda de custo no Teletrabalho

Em relação ao teletrabalho, a COE reivindicou a manutenção e a valorização da ajuda de custo, atualmente fixada em R$ 1.381,68 por ano, o equivalente a R$ 115,14 mensais. O benefício é superior ao previsto na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT). O Itaú propôs reajustar o valor apenas pela inflação, mas a representação sindical considerou a proposta insuficiente e reivindicou a aplicação do mesmo índice de reajuste da categoria bancária: 4,6%, correspondente à reposição da inflação acrescida de 0,6% de aumento real.

Outra preocupação é garantir a continuidade do benefício a partir de 2028, quando os funcionários do Itaú passarão a cumprir mais um dia de trabalho presencial por semana. Pelas regras da CCT, quem trabalha remotamente menos de três dias por semana pode perder o direito à ajuda de custo. Por isso, os dirigentes sindicais defendem que o acordo específico do Itaú preserve o benefício, independentemente da mudança na frequência do trabalho presencial.

Transparência no monitoramento digital

Um dos principais pontos de preocupação da COE é o monitoramento das atividades dos funcionários por meio de ferramentas digitais. Os sindicatos reivindicam transparência sobre os mecanismos utilizados pelo Itaú para acompanhar a rotina profissional, registrar atividades e produzir indicadores de produtividade. Os representantes do banco se comprometeram a apresentar os termos assinados pelos trabalhadores, permitindo que a representação sindical analise seu conteúdo e avalie a necessidade de complementações. O objetivo é garantir que os documentos esclareçam quais ferramentas são utilizadas, suas finalidades e a quem pertencem os sistemas e as informações coletadas.

A COE também cobrou explicações sobre o monitoramento realizado por plataformas como Microsoft Teams, Office 365 e OneDrive, incluindo o controle de mensagens corporativas, reuniões virtuais, horários, participantes e conteúdos registrados. Outra reivindicação diz respeito aos programas instalados nos notebooks dos funcionários, como XOne e ThousandEyes, e à eventual utilização de recursos de monitoramento ativo.

Entre os mecanismos sobre os quais os sindicalistas solicitaram esclarecimentos estão geolocalização, acompanhamento do uso dos computadores, acesso a sites, utilização de programas, e-mails, chats, câmeras e microfones.

Também foi debatida a possibilidade de utilização de ferramentas capazes de registrar movimentos do teclado e do mouse, identificar períodos de atividade ou inatividade e monitorar quais programas permanecem abertos e por quanto tempo. A representação sindical quer saber quais desses recursos são efetivamente utilizados pelo Itaú e quais indicadores são produzidos pelas plataformas digitais.

Os dirigentes cobraram ainda transparência sobre a exigência de disponibilidade permanente no Teams e a obrigatoriedade de utilização de determinados canais digitais, incluindo os mecanismos de monitoramento das agências digitais.

A COE defende que as ferramentas de monitoramento não sejam utilizadas como instrumentos de pressão por metas, nem sirvam de fundamento para advertências ou punições aos trabalhadores.

Compensação em dobro aos domingos

As negociações também abordaram as regras de compensação do trabalho realizado aos sábados, domingos e feriados. Pelo acordo anterior, as horas trabalhadas aos sábados e domingos tinham multiplicador de 1,5, enquanto o trabalho nos feriados era compensado em dobro. A COE reivindicou a equiparação dos domingos aos feriados, garantindo multiplicador de duas vezes para as horas trabalhadas nesses dias.

A reivindicação foi atendida, ficando estabelecida a compensação em dobro para o trabalho realizado aos domingos.

Imposições de gestores

A representação sindical também apresentou denúncias de gestores que estariam impondo unilateralmente os horários de compensação das horas trabalhadas, inclusive por meio da ampliação do intervalo de almoço. O Itaú informou que verificará as denúncias e orientou os funcionários a utilizar os canais internos para relatar eventuais irregularidades. A COE reforçou que, conforme previsto no acordo, a compensação das horas deve ocorrer de comum acordo entre empregado e empregador, sem imposição unilateral das chefias.

Mais bolsas de estudos e reajuste de 4,6%

Os dirigentes sindicais reivindicaram a ampliação do programa de auxílio-educação, com aumento do número de bolsas destinadas aos funcionários que cursam graduação e pós-graduação. Atualmente, o programa contempla 5.661 bolsas. O banco se comprometeu a avaliar a proposta e apresentar uma resposta.

Em relação ao reajuste do benefício, o Itaú ofereceu 3,98%, correspondente ao INPC do período. A COE rejeitou o índice como insuficiente e reivindicou a aplicação do reajuste de 4,6%, o mesmo estabelecido para a categoria bancária.

Retorno de afastados

Outro tema importante foi a proteção dos funcionários que retornam ao trabalho após afastamentos. Atualmente, nas agências físicas e digitais, os trabalhadores que retornam de licença contam com redução temporária das metas individuais: desconto de 100% no primeiro mês, 75% no segundo e 50% no terceiro. A COE reivindicou a extensão dessa proteção aos funcionários dos departamentos administrativos, para evitar que o retorno ao trabalho seja acompanhado de cobranças excessivas e prejuízos relacionados ao cumprimento de metas. O banco rejeitou a ampliação, alegando que o modelo de metas das agências é diferente daquele adotado nas áreas administrativas.

A representação sindical, porém, insistiu na necessidade de garantir, no ACT, que nenhum trabalhador seja prejudicado pelas metas após retornar de um afastamento. O Itaú se comprometeu a agendar uma reunião com a área de Recursos Humanos (RH) para esclarecer como funciona o processo de retorno às atividades e de definição de metas para os funcionários administrativos.

Pesquisa sobre riscos psicossociais

Na pauta de saúde e prevenção ao adoecimento, os representantes dos trabalhadores reivindicaram a inclusão, no ACT, de uma pesquisa realizada com a participação dos funcionários para identificar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A proposta busca contribuir para a elaboração de um programa de gerenciamento de riscos, com diagnóstico das condições de trabalho e definição de medidas preventivas. Embora o tema já esteja previsto na CCT, a COE defende que o acordo específico assegure a participação efetiva dos trabalhadores na identificação dos problemas e na construção de soluções. O Itaú rejeitou a reivindicação, alegando que já realiza uma pesquisa denominada HSE-IT, baseada em metodologia de avaliação de riscos psicossociais no ambiente profissional. Segundo o banco, a pesquisa deverá ser aplicada no início de 2027. Os representantes da empresa se comprometeram a apresentar os resultados à COE assim que estiverem disponíveis.

Indenizações ante o fechamento de agências

A COE voltou a cobrar a ampliação da indenização destinada aos trabalhadores atingidos pelo fechamento de agências do Itaú. Apesar da insistência dos representantes sindicais, não houve avanços nessa negociação. Por enquanto, permanece garantida apenas a indenização prevista na Convenção Coletiva de Trabalho.

Certificações da Anbima para afastados

As negociações também trataram da transição das certificações profissionais da Anbima, especialmente das regras aplicáveis aos funcionários afastados.

Para os trabalhadores em licença que já concluíram as microcertificações exigidas, o Itaú informou que não haverá obrigação de realizar cursos ou treinamentos durante o afastamento. O prazo de 31 de dezembro de 2026 aplica-se aos funcionários em atividade.

Caso o trabalhador afastado conclua voluntariamente as etapas ainda em 2026, o banco custeará a transição, com base nas informações encaminhadas pela Anbima. Não será necessário emitir ou pagar boletos nem encaminhar informações adicionais ao Itaú. Para os funcionários que ainda não concluíram as microcertificações, a Anbima prevê prorrogação automática de 45 dias após o encerramento da licença, desde que sejam atendidos os critérios de elegibilidade estabelecidos pela entidade.

O banco assumirá os custos da transição após o retorno ao trabalho, respeitados os requisitos exigidos.

A prorrogação contempla trabalhadores em licença com retorno previsto entre 27 de dezembro de 2026 e 31 de dezembro de 2027, além daqueles que iniciarem o afastamento até 26 de dezembro de 2026 e tiverem retorno previsto até o fim de 2027. Para os funcionários que retornarem a partir de 1º de janeiro de 2028, não haverá prorrogação do prazo de transição. Nesses casos, será necessário obter a nova certificação mediante aprovação em exame aplicado diretamente pela Anbima.

Próxima rodada de negociação

O Itaú ficou de confirmar a data da próxima rodada de negociação, quando deverá apresentar respostas às reivindicações encaminhadas pela representação sindical.